Você é importante (Desconhecido)
Afinidade (Por Arthur da Távola)
Senso comum e rotina (Por Martinho Carlos Rost)
Nosso viver diário, ou nosso cotidiano, é uma sucessão de atos que observamos - ou aos quais damos importância - por pura força de hábito. Temos hábitos alimentares, de higiene e de comportamento, que adquirimos ao repetir freqüentemente determinadas ações, como acordar, fazer as refeições e nos recolher sempre à mesma hora; ou como nos deslocar ao trabalho seguindo sempre pelo mesmo itinerário. Damos preferência a determinado canal de televisão, porque nos habituamos às suas novelas e noticiários. Alimentamos hábitos quando damos atenção sempre às mesmas coisas; quando pensamos sempre da mesma maneira; ou quando nos negamos, sistematicamente, a mudar. São os hábitos que fazem nossa rotina, ou lhe servem como estrutura. Nosso dia-a-dia, ou nossa rotina feita de hábitos, é a materialização de nosso conceito de viver. Em outras palavras, nosso dia-a-dia, ou a forma assumida por nossa rotina, é a representação de nosso pensamento, a respeito de nós mesmos e de nossa relação com o mundo.
Em nosso dia-a-dia, costumamos rejeitar ou nos esquivar de pessoas, coisas ou situações que não possamos dominar, ou sobre as quais não tenhamos controle: evitamos tudo o que nos tire da mesmice cotidiana, porque em nossa rotina todos os elementos devem ser conhecidos e constantes. Temos a tendência de proceder sempre da mesma maneira, fazendo com que nossos dias sejam uns videoteipes dos outros. Nossos hábitos, por suas características de reprodução, tendem a manter o estado atual das coisas; por isso, quase sempre, nos conduzem à indiferença e à inércia. A rotina é nosso mundo: o território demarcado por nossos conceitos, padrões e modelos. Acomodar-se ao dia-a-dia raso de nossas vidinhas, equivale a recolher-se à prisão, sob o pretexto da segurança. As convicções que nos servem de cárcere, se por um lado protegem nossos interesses imediatistas e mundanos, por outro eliminam de nossas vidas a curiosidade pelo desconhecido, a satisfação da surpresa e o prazer da descoberta.
O que fazemos ou deixamos de fazer, nosso comportamento diante das circunstâncias, é a exteriorização de nossa filosofia de vida. Nossa filosofia é nossa sabedoria: é nosso conhecimento acumulado (pena que muito pelas vias da razão, e muito pouco pelas da intuição); mais: nossa filosofia é a síntese de nossa experiência, ou história pessoal; mais ainda: é a prática de nossas definições ou teorias sobre o certo e o errado. Nossa rotina diária é a prática de nossa filosofia: se nossa filosofia é boa, nossa rotina (se continuar existindo) nos conduz à felicidade e à saúde; se nossa filosofia é ruim, nossa rotina é marcada pela dor, pela angústia, pela ansiedade, pelo medo, pela desesperança e pela depressão. Sabemos da qualidade da árvore por seus frutos: se a árvore é boa, seus frutos serão bons; quando não presta, costuma-se cortá-la e lançá-la ao fogo.
Mas o que são, afinal, o certo e o errado? De onde vem nossas noções de bem e de mal? Sabemos que aquilo que é certo para nós, pode não o ser para os outros. O que acreditamos ser o bem e a verdade, para os outros pode significar exatamente o contrário: a negação de tudo isso, ou sua antítese. Nossa razão confunde-se com opostos igualmente aceitáveis, encastelando-se em certezas dogmáticas, teimosia e preconceitos. Uns, por exemplo, afirmam a reencarnação; outros, por sua vez, a negam. Uns e outros podem argumentar de forma igualmente válida, convincente e satisfatória; nossa razão, porém, não aceita paradoxos e toma um partido. O partido que tomamos passa a ser nossa convicção, ou a opinião que formamos sobre o assunto - e é ao redor dela que erguemos nossos muros. E da mesma forma como nós o fazemos, assim o fazem os outros. O patético é que todos insistem em manter-se dentro de seus próprios domínios, mesmo sabendo que fora deles - fora de todos os domínios - a vida continue a fluir, em sua perfeita naturalidade e espontaneidade. Nossas tentativas de conciliação, quase sempre, não passam de exercícios de retórica ou falatório inútil: a questão não é dizer que cada um TEM um pedacinho da verdade, mas que cada um É um pedacinho dessa verdade. Despertar espiritualmente, é desviar o foco de nossa atenção, daquilo que PENSAMOS SER, para aquilo que de fato SOMOS: unos, em espírito.
Para conviver com a diversidade que criamos - e que não passa de uma discussão fútil sobre o sexo dos anjos -, ou para que consigamos nos aturar uns aos outros, criamos o que é chamado de senso comum: um "juiz" que nem sempre toma suas decisões baseado no bom senso. Sabe-se que o senso comum raramente sintetiza a opinião da maioria. Criamos estruturas, denominadas de aparelhos de reprodução da sociedade (como a escola, a igreja e o Estado) - mecanismos que, com o tempo, adquirem vida própria, além de uma formidável capacidade de persuasão e repressão. Os aparelhos ideológicos nos persuadem a pensar de uma determinada forma; se não o fazemos, ou se contrariamos o consenso, passamos ao campo de abrangência dos aparelhos repressivos. Os que pensam diferentemente da maioria, os que destoam da grande massa, são excluídos, marginalizados e transformados em párias da sociedade. E é provavelmente por essa razão que fazemos as coisas, não porque acreditemos que devam ser feitas assim, mas porque se transformou em costume fazê-las dessa forma.
Observe-se que é o senso comum - esse acordo de cavalheiros que firmamos em relação ao que é certo e errado -, ele próprio, o gerador de tais opostos, no momento em que estabelece um padrão. Quando dizemos que uma coisa é boa ou má, utilizamos o senso comum como parâmetro - e ele passa a ser a linha mestra de nosso comportamento; o construtor de nossa personalidade. O senso comum governa a nossa rotina, acabando por nos conduzir como a marionetes. Nos transformamos em massa de manobra daqueles que controlam as ferramentas formadoras de opinião. Com nossa atenção dispersada por incontáveis besteiras reunidas num produto chamado "aldeia global", perdemos a força que nos alçava aos vôos mais altos.
Somos todos pássaros, e é isso que nos torna iguais. Todos temos asas, embora estejam se atrofiando em nossas gaiolas. Se olharmos para as grades, porém, veremos que não oferecem resistência aos que escolhem um caminho com coração. Qualquer um de nós pode ultrapassar seus limites, e deve fazê-lo se quiser compreender o significado da palavra liberdade. Voar faz parte de nossa natureza, e todos, sem exceção, sabemos fazê-lo. Basta vontade. Basta querer. Basta passar, de uma vez por todas, à prática do tão citado "Amai-vos uns aos outros". E, para isso, é necessário que mergulhemos fundo no sentimento do desapego. Quando nada tivermos, descobriremos a felicidade de não ter o que perder. Aí, não haverá o que nos prenda; e não creio que sintamos saudades do que deixarmos para trás.
Lembranças mal lembradas (Por Martha Medeiros)


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